EDIFÍCIO URCA

Localizado em um terreno de desenho pentagonal irregular na Urca, bairro predominantemente residencial na cidade do Rio de Janeiro e popularmente conhecido pelo complexo natural dos morros do Pão de Açúcar e outro de mesmo nome do bairro, este edifício de nove apartamentos é proposto a partir de térreo, quatro pavimentos e cobertura distribuídos em 2.700 metros quadrados.

Buscando o melhor aproveitamento de áreas, a proposta arquitetônica tomou partido das taxas – de ocupação, gabarito e recuos – exigidas pela prefeitura, criando um offset do perímetro do terreno ao desenho da implantação.  A partir disso, foram definidas a setorização de cada uma das células habitacionais por piso, senda a primeira com as zonas de estar e íntima a leste; e a segunda com o estar a leste a dormitórios a oeste, priorizando o sol do fim da tarde.

Com a dimensão reduzida do lote e inexistência de pavimento subsolo para acomodar o estacionamento, o núcleo central do térreo segue o mesmo perímetro da implantação, mas recuado, e seus vértices são diluídos em curvas. Por sua vez, estes recuos oportunizam balanços estruturais e apenas dois pilares frontais são visíveis a partir da calçada, enquanto os demais são mimetizados entre as paredes do interior. Essa solução somada às áreas livres decorrentes dos recuos do edifício sobre o terreno gera espaço para 17 vagas de veículos.  Os beirais também protegem os visitantes das intempéries.

Portaria, zeladoria, núcleos de circulação vertical, depósitos (predial, pessoal e de lixo) e área técnica são organizados no volume trapezoidal e o acesso destes dois últimos é realizado pelo exterior para melhor aproveitamento do espaço.

Cada um dos quatro pavimentos-tipo tem duas unidades residenciais. Com fachada principal voltada a face sudeste, eles dividem a mesma, com planta em L respectivamente, onde a zona social de ambos e suítes de solteiro da primeira unidade recebem insolação durante a maior parte da manhã, e suíte de casal voltado a oeste pela tarde, bem como os demais dormitórios da segunda unidade.

Cada apartamento possui uma varanda de dez metros de extensão. Em planta, a porção frontal tem desenho espelhado, acomodando sala de estar e de jantar, cozinha, área de serviço e gourmet. Já na porção traseira, decorrente da irregularidade do lote, há três suítes – master e duas de solteiro –, e em cada unidade, uma tem varanda privativa. Privilegiando as vistas, uma das laterais é voltada ao Morro do Pão de Açúcar; e a outra, para a baia de Botafogo e o Morro do Corcovado.

Coroando o edifício, a cobertura, de mesmo perímetro dos demais pavimentos possui layout diferente e a laje da varanda é recuada na porção frontal e laterais, gerando solários e certa leveza visual quando vista a partir da rua. Salas de estar e jantar são posicionadas na área central e integradas ao lazer e espaço de refeições externo dispostos nas extremidades, através da varanda em C. Na área leste, fica a cozinha, lavanderia, dormitório e banheiro de serviço. Na zona transversal a oeste, quatro suítes, sendo duas delas com cama de casal e as demais com duas camas de solteira cada. O maior dormitório é equipado com closet e varanda.

Procuramos adotar uma abordagem silenciosa ao projeto e como uma das estratégias, no perímetro de todo o edifício, floreiras conferem verde à fachada, que crescerá com o passar do tempo junto aos brises verticais em madeira ripada que faz o papel de véu, protegendo dos raios solares diretos, ao passo em que também contribui para a identidade do projeto.

ESCRITÓRIO VC

Para conversão de uma casa de valor histórico proveniente de um conjunto residencial geminado em escritório, a Bernardes Arquitetura buscou soluções que maximizassem a iluminação natural e setorização dos espaços.

No salão frontal, concentramos uma singela recepção composta por um pequeno balcão, e sobre este mesmo espaço, um volume conformado a partir de painéis especiais de vidro curvo que configuram a sala de reunião principal, sem que os necessitem transitar pelos demais espaços. As folhas de vidro são presas diretamente sobre a estrutura metálica no forro, livre de caixilhos e valorizando o desenho orgânico. No interior, a parede principal tem acabamento em pedra original da casa, e no forro, foram instaladas ripas de madeira. Para maior comodidade durante as reuniões, uma cortina perimetral permite ser fechada.

Preservando a memória da arquitetura original, a pedra também está presente na parede oposta e optou-se por mantê-la, recebendo iluminação indireta através do sistema wall washing, que simula a iluminação zenital, com projeto luminotécnico desenvolvido em parceria com o LD Studio.

Para maior aproveitamento da iluminação e ventilação natural nos espaços de trabalho, o vão central original da residência foi convertido em pátio ora para refeições, ora como sala de reunião independente. Na porção traseira, são dispostos os espaços de serviço no pavimento térreo e uma pequena sala no pavimento superior, respectivamente. Estas são protegidas por painéis de ripado rustico de madeira que fazem o papel de brises soleil, auxiliando na filtragem da luz e privacidade.

Trazendo o clima do bairro arborizado ao projeto, além dos brises em matéria-prima natural, o pátio central recebe um jardim vertical com espécies tropicais e placas de cimento queimado sobre o piso.

No primeiro pavimento, a sala principal é equipada com postos de trabalho variados e bancada com desenho sinuoso. Criando uma unidade estética, a mesma madeira do forro da sala de reuniões do térreo é aplicada nesta, e o piso recebe réguas de madeira. Na iluminação, pendentes lineares.

BARCO PHENIX

Pensado como uma habitação de lazer nômade, com 33 metros de comprimento (98 pés) e quatro níveis, o Barco Phenix teve seu projeto de interiores realizado pela Bernardes Arquitetura em parceria com Manoel Chaves, responsável pela arquitetura naval.

No convés inferior com acesso pela popa (onde está localizada a casa de máquinas) ficam localizadas quatro suítes na zona central – duas delas com cama de casal e as outras duas com três camas de solteiro cada uma, sendo uma beliche –, e duas cabines de marinheiro na zona frontal. Os dormitórios de solteiro recebem acabamento em folhas de madeira no mobiliário e paredes, trazendo maior conforto ao espaço, além de luminárias de leitura individuais e roupas de camas com tecido azul celeste que alude à tonalidade do mar.

No convés principal estão concentradas as áreas de lazer. Na popa fica a varanda que é transformada em área de refeições ao receber uma mesa de até oito lugares, e um sofá revestido em tecido para exteriores, com maior durabilidade ao clima marítimo. No interior, a área central recebe o mesmo deque do exterior e folhas de madeira sobre as paredes, interruptores e mobiliário fixo. Nas laterais, dois sofás são responsáveis pela setorização do espaço em estar e jantar, de maneira que este segundo funciona como um “canto alemão”. Os sofás recebem estofamento em tecido cinza e almofadas em tons azul marinho, como as cadeiras do exterior.

A integração da cozinha a érea de jantar é realizada por meio de uma abertura lateral com acesso direto ao balcão principal, como área de apoio e passa-pratos. Com layout configurado em L acompanhando o desenho da circulação vertical, o espaço é equipado com modernos eletrodomésticos especialmente desenhados para embarcações. Os puxadores dos armários tem o sistema de cavas, ficando ocultos e poupando espaço. Aos fundos, uma pequena despensa.

Na zona frontal, fica a suíte máster, com closet e interiores revestidos em madeira com amplas aberturas. Sobre o sofá lateral, as gavetas ampliam as áreas de armazenamento, e rodapé com iluminação de efeito, com projeto luminotécnico assinado pela Lightworks.

Com vista elevada, o convés passadiço recebe a sala de TV e uma nova varanda, com puffs, mesa de refeições que acomoda até 10 pessoas e bancada. Na proa, há a cabine do comandante com dois postos de serviço. Enquanto isso, o último convés é responsável por concentrar um solário.

CASA CWN

Em Santana de Parnaíba, cidade a 40 quilômetros de distância de São Paulo, fica o condomínio onde esta residência foi construída. O lote com 1.850 metros quadrados e aproximadamente 6 metros de desnível acomodou a casa de 1.750 metros quadrados de área edificada distribuída em três pisos.  O projeto de configuração em L e uma das alas em diagonal tem estrutura de aço e fechamentos em pedra na face sul (opaca) e caixilharia e brises na face norte (translúcida).

Dois eixos organizam a setorização da casa a partir do volume em formato de bumerangue, de maneira que na ala paralela a rua fica as áreas sociais e suíte master, enquanto na segunda ala em ângulo obtuso, as áreas de serviço e íntimas. Nesta primeira, a zona central acomoda a sala de estar de pé direito duplo, integrada ao jardim de espécies tropicais com paisagismo assinado por Isabel Duprat. No interior, a partir da modulação do esqueleto metálico, as quatro faces superiores recebem fechamento em folhas de vidro e painéis de madeira ripada, sendo aquela voltada ao jardim com brises que acompanham o mesmo alinhamento e dimensão das ripas dos demais painéis. Esta abordagem permitiu vistas estratégicas a partir do pavimento superior, além de proteção contra os raios solares diretos, no caso dos brises.

Vale dizer que os brises detalhados pela equipe da Bernardes Arquitetura, são amparados por bandejas metálicas revestidas em chapas metálicas com a mesma pintura da estrutura, que também cumprem o papel de beiral.

Já na face inferior da parede em destaque do módulo principal, o fechamento se dá pela aplicação de pedra. No mobiliário, peças de designers brasileiros compõe o estar, como as poltronas Mole de Sérgio Rodrigues e Vareta de Joaquim Tenreiro. Na lateral esquerda, o espaço (de pé direito simples) é cortado perpendicularmente por uma parede e resguarda a sala de jantar, com acesso a cozinha e corredor aos fundos.

Na extremidade oposta, a varanda de mesma dimensão do módulo estrutural da sala de estar, mas de altura simples, pode ser totalmente integrada ao interior se aberta a caixilharia. O forro, volume da churrasqueira e bancada recebem ripas e réguas de madeira (mesma dos demais ambientes), e pedra sobre o balcão e nicho da pia. Para o mobiliário, destaca-se o sofá Box de Jader Almeida em harmonia as poltronas Astúrias Fixa de Carlos Motta sobre o jardim.

O piso em placas de pedra dos ambientes internos também foi utilizado na área externa, e a ausência de desnível ressalta a continuidade espacial. O trilho dos caixilhos foram embutidos entre as placas.

Trazendo aconchego e ressaltando as tonalidades naturais dos materiais, o projeto de iluminação desenvolvido em parceria com o Estúdio Carlos Fortes, utiliza temperatura de cor quente.

No pavimento superior há quatro suítes, e pelo arranjo do vazio central, a suíte master é acomodada na lateral direita e acessada por uma passarela, enquanto os demais dormitórios são distribuídos no eixo leste-oeste. Brises de madeira conferem privacidade e transparência ao jardim, que contribui para a ambientação agradável dos espaços de repouso. No subsolo, fica a garagem para até cinco automóveis e áreas técnicas.

CASA MAJ

Implantada em um bairro paulistano predominantemente residencial, a Casa MAJ foi projetada a partir da simplificação da matéria e permeabilidade visual.

Cercada por outras casas e inexistência de vistas privilegiadas ao horizonte, optou-se por concentrar a massa principal na porção frontal do lote, criando uma vista própria ao jardim na área traseira. A partir disso, estruturalmente, a casa é pensada de maneira muito simples: sobre um plano horizontal em concreto (laje) erguido a 50 centímetros do solo, quatro empenas de concreto armado são sutilmente dispostas – duas delas em cada extremidade, sendo as duas centrais em diagonal – e que por sua vez configuram volumes trapezoidais que acomodam os espaços de apoio (cozinha, copa, lavanderia, e áreas de serviço no primeiro deles; e home theater e lavabo no segundo). Esta solução viabilizou um vão livre central de 13 metros de comprimento que acomoda o living e recebe fechamentos em caixilhos de vidro que podem ser recolhidos, integrando o espaço interno ao exterior.

As empenas centrais, por sua vez, extrapolam os limites do perímetro do piso, em direção ao jardim, de modo que estas parecem flutuar sobre o gramado. Perpendicular aos dois blocos de concreto, o vigamento de madeira laminada colada de eucalipto é disposto sobre o embasamento, acomodando as áreas íntimas no pavimento superior. Este volume, por sua vez é integralmente construído em um sistema estrutural leve industrializado em madeira, desenvolvido em parceria com a ITA Construtora, que permitiu rápida execução, baixa produção de resíduos e qualidade das peças.

No pavimento térreo, o contraponto das tonalidades claras das superfícies das paredes e piso em placas de concreto junto ao calor da madeira no forro e mobiliário, torna o espaço leve e aconchegante. No mobiliário do estar, destacam-se peças icônicas do design brasileiro, como o sofá São Conrado e poltrona Siri de Cláudia Moreira Salles, compostas junto a outros clássicos modernos, como a luminária Akari-10A do designer nipo-americano Isamu Noguchi. Assim como a própria arquitetura, a ideia de leveza é conduzida ao mobiliário, com peças que a base inferior não encosta integralmente sobre o piso, mas, elevadas, têm estruturas que sutilmente tocam a superfície, como o sofá da marca italiana Poliform. A cor é introduzida minimamente nos objetos decorativos, almofadas e estofado da poltrona de Claúdia Moreira Salles.

A sala de jantar central tem mesa em madeira maciça, mesma do mobiliário do estar, e desenho especial da Bernardes Arquitetura, acomodando até 12 pessoas. Na composição, 10 cadeiras clássicos do design escandinavo, Wishbone e Round, de Hans Wegner, adquiridas pela Artesian; e Hoffmann Chair, de design original do austríaco Josef Hoffman. Na área gourmet, os armários são revestidos por madeira ebanizada fosca e o tampo e balcão em granito siena.

No pavimento superior, a madeira predomina no piso e marcenaria com desenho da Bernardes. Os dormitórios infantis tem bancadas de estudos com áreas de armazenamento. A suíte master é provida de closet. Aos fundos, a varanda integrada a todos os dormitórios e escritório, com forro e piso de madeira, recebe peças metálicas verticais em diagonal com brises horizontais de madeira, protegendo da insolação direta e permitindo que a brisa flua.

Apesar de ser uma casa urbana, a paleta de materiais naturais na construção e mobiliário, somado as soluções de integração, trouxeram a sensação de casa de veraneio ou fim de semana, em contrapartida, a permeabilidade visual ao jardim tropical com folhas de bananeira, coqueiros e philodendros, assinado por Daniel Nunes.

FACULDADE DE EDUCAÇÃO